Nunca mais me voltaram e tirar o tapete de debaixo dos pés com tanta lisura.
Tinha dezoito anos, estávamos a almoçar e eu saltei. Já não sei porquê, mas só podia ser importante. Falei, esbracejei, argumentei e contra argumentei, disse frases importantes que deviam começar todas por "sempre" e "nunca" e acabar em "tenho a certeza absoluta". Falava a sério, muito a sério, como sempre falo nessas alturas, que são poucas, muito poucas, e o tal meu mau feitio (pequeno) estava todo na ponta do tal meu nariz (grande).
Os meus irmãos, mais novos, nem piavam. A minha mãe perguntava a toda a gente se o almoço estava bom, chamava a Adelaide (essa era outra com um mau feitio pequeno como o meu) para servir mais que o senhor engenheiro já tinha o prato quase vazio, contava que tinha encontrado a Isaurinha ao pé da Flora e olhava pelo canto do olho para mim e para ele. Aquilo prometia e os estilhaços iam voar para todo o lado.
Ele, o senhor engenheiro, o meu pai, ia ouvindo e almoçando. Nem um "como?" disse até eu terminar de lhe atirar para o prato todas as razões que tinha, as que julgava ter e ainda as que davam jeito na altura.
Quando parei para respirar, que de vez em quando também respiro, o meu pai, sem quase olhar para mim e, seguramente, sem levantar a voz, atirou a frase mortífera. Nem esperava outra coisa de ti. Tens dezoito anos e tens que fazer as tuas guerras todas. Depois passa-te. A mim também me passou.
E o sacaninha continuou a almoçar como se eu nem ali estivesse. E eu peguei finalmente nos talheres, que posso ter mau feitio, mas burra nunca fui.
E ele tinha razão.
Continuo a ter mau feitio, pequeno, mas já não gasto muito tempo a caçar elefantes no cimo do Evereste com redes de borboletas, que era como na altura descrevia as minhas campanhas (é que até comigo tenho mau feitio). Agora, a maior parte das vezes, oiço, registo, digiro ou não, e sigo em frente. Posso só fazer um pequeno sorriso de escárnio e maldizer, ou escrever um post, mas isso faz menos barulho e sempre me canso menos.
Li há pouco um post da Ana Matos Pires, no Cinco Dias, Um "grupão" de risco, portantos - "na África subsariana concentram-se dois terços dos seropositivos do mundo".
De repente, vi-me numa reunião de há uns dias atrás. Eles eram simpáticos, e gostam muito de mim, e acham que sei o que digo e ouvem-me quando falo. Estávamos no bar de um hotel, a tomar uns cafés e a falar de negócios. Eles tinham chegado de África do Sul, que lá, doutora, já não se pode viver, e queriam começar a comprar umas coisas por aqui. Excelente. Isso sei eu como e a quem. Depois começam a explicar porque lá já não se podia viver. De como há tão pouco tempo havia 25 pretos para um branco e agora havia mais de cem. De como os pretos estão a estragar a terra deles. E de como os pretos e os pretos e os pretos.
E eu continuei a tomar café. Mesmo quando ouvi o remate E ainda diziam que por esta altura estavam todos mortos com SIDA.
O meu feitio continua mau, mas agora também já sei como manter aquele ar de sim, está bem, nem oiço nada apesar de vocês serem uns imbecis. Não gasto tempo com gente assim. Sigo em frente. Mas apanho-os na curva, isso apanho. Que o meu mau feitio continua pequeno e o nariz continua grande. Mas o meu pai tinha razão, com o tempo aprendemos umas coisas, e eu também aprendi a não perder tempo.
Tinha dezoito anos, estávamos a almoçar e eu saltei. Já não sei porquê, mas só podia ser importante. Falei, esbracejei, argumentei e contra argumentei, disse frases importantes que deviam começar todas por "sempre" e "nunca" e acabar em "tenho a certeza absoluta". Falava a sério, muito a sério, como sempre falo nessas alturas, que são poucas, muito poucas, e o tal meu mau feitio (pequeno) estava todo na ponta do tal meu nariz (grande).
Os meus irmãos, mais novos, nem piavam. A minha mãe perguntava a toda a gente se o almoço estava bom, chamava a Adelaide (essa era outra com um mau feitio pequeno como o meu) para servir mais que o senhor engenheiro já tinha o prato quase vazio, contava que tinha encontrado a Isaurinha ao pé da Flora e olhava pelo canto do olho para mim e para ele. Aquilo prometia e os estilhaços iam voar para todo o lado.
Ele, o senhor engenheiro, o meu pai, ia ouvindo e almoçando. Nem um "como?" disse até eu terminar de lhe atirar para o prato todas as razões que tinha, as que julgava ter e ainda as que davam jeito na altura.
Quando parei para respirar, que de vez em quando também respiro, o meu pai, sem quase olhar para mim e, seguramente, sem levantar a voz, atirou a frase mortífera. Nem esperava outra coisa de ti. Tens dezoito anos e tens que fazer as tuas guerras todas. Depois passa-te. A mim também me passou.
E o sacaninha continuou a almoçar como se eu nem ali estivesse. E eu peguei finalmente nos talheres, que posso ter mau feitio, mas burra nunca fui.
E ele tinha razão.
Continuo a ter mau feitio, pequeno, mas já não gasto muito tempo a caçar elefantes no cimo do Evereste com redes de borboletas, que era como na altura descrevia as minhas campanhas (é que até comigo tenho mau feitio). Agora, a maior parte das vezes, oiço, registo, digiro ou não, e sigo em frente. Posso só fazer um pequeno sorriso de escárnio e maldizer, ou escrever um post, mas isso faz menos barulho e sempre me canso menos.
Li há pouco um post da Ana Matos Pires, no Cinco Dias, Um "grupão" de risco, portantos - "na África subsariana concentram-se dois terços dos seropositivos do mundo".
De repente, vi-me numa reunião de há uns dias atrás. Eles eram simpáticos, e gostam muito de mim, e acham que sei o que digo e ouvem-me quando falo. Estávamos no bar de um hotel, a tomar uns cafés e a falar de negócios. Eles tinham chegado de África do Sul, que lá, doutora, já não se pode viver, e queriam começar a comprar umas coisas por aqui. Excelente. Isso sei eu como e a quem. Depois começam a explicar porque lá já não se podia viver. De como há tão pouco tempo havia 25 pretos para um branco e agora havia mais de cem. De como os pretos estão a estragar a terra deles. E de como os pretos e os pretos e os pretos.
E eu continuei a tomar café. Mesmo quando ouvi o remate E ainda diziam que por esta altura estavam todos mortos com SIDA.
O meu feitio continua mau, mas agora também já sei como manter aquele ar de sim, está bem, nem oiço nada apesar de vocês serem uns imbecis. Não gasto tempo com gente assim. Sigo em frente. Mas apanho-os na curva, isso apanho. Que o meu mau feitio continua pequeno e o nariz continua grande. Mas o meu pai tinha razão, com o tempo aprendemos umas coisas, e eu também aprendi a não perder tempo.