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Eu, idiota, me confesso.

Voltou a acontecer e voltei a sentir-me pequenina, estúpida, preconceituosa e, sim, idiota!
Por mais que o saiba continuo a não olhar pelo lado certo, deixo só escorrer os olhos e pronto, acho que está visto. Não está, que gente não se vê assim.
Cheguei agora da rua. Fui levar o miúdo ao comboio, para mim será miúdo sempre, e levei as gajinhas comigo, que elas até ao último momento não largam o pescoço do mano velho.
Na vinda parei na tasca da Paula, um misto de mercearia e taberna que toda a aldeia que é aldeia de roupa branca tem, e fiz o que costumo fazer - carro parado sem grandes preocupações, chaves na ignição, miúdas com ordens de não saiam que não demoro. Não tinha ainda aberto a porta quando os vi. Dois homens encostados às garrafas do gás a despejarem umas minis geladas. Cabo verdeanos, pareciam. Um deles deitou-nos um olhar mais atento e a minha mão, mandada pela cabeça tonta, desligou o carro e meteu as chaves no bolso.
Voltei pouco depois. Continuavam no mesmo sítio e o mais velho disse qualquer coisa que não percebi. O outro, mais novo, sorri-me, pede desculpa e diz ao amigo a frase que me fez ter vergonha de mim - a senhora é boa pessoa.
Não, não sou, e foi o que me saiu logo boca fora. Não sou boa pessoa. Tinha acabado de não o ser. Ele dizia que sim, que me conhecia e era boa pessoa. Até lhe tinha dado cervejas frescas quando andava a trabalhar ao sol.
Lembrei-me com a ajuda dele. Andou por aqui, há uns anos, dias e dias seguidos a tratar do jardim, com o sol a bater-lhe nas costas e a mangueira para matar a sede. Subcontratado pelo jardineiro de serviço, que lhe pagava cinco euros por dia e lhe trazia uns restos como almoço. Sim, é verdade, levámos-lhe, eu e as miúdas, várias cervejas para matar a sede. Ele sorria sempre, com aqueles dentes brancos que, explicava hoje, já não tem.
Hoje olhei para ele e não o vi. Olhei para ele e não vi gente. Vi medos meus, vi preconceitos, vi notícias de jornal. Vi-me a mim a fazer o que ensino as minhas filhas a não fazerem - a olhar de lado, a julgar pela capa sem sequer abrir o livro.
O medo, o medo imbecil e irracional está a tomar conta de mim. Está a tomar conta de nós.